Brasília, 28 de janeiro de 2004

ANO IX

Nº 1562

  FÓRUM SOCIAL MUNDIAL

 

Justiça fiscal e social versus endividamento e lavagem de dinheiro

Na tarde do dia 19 de janeiro, o Unafisco, juntamente com o Sindicato Nacional Unificado dos Impostos (SNUI), da França, e a Ação pela Tributação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos (ATTAC), realizou a oficina "Justiça fiscal e social versus endividamento e lavagem de dinheiro", que buscou articular diversas entidades do mundo em torno da justiça fiscal e do controle do fluxo de capitais financeiros. Participaram da mesa a presidente do Unafisco, Maria Lucia Fattorelli, o secretário-geral do SNUI, Serge Colin, e os integrantes da "Tobin Tax Network - Inglaterra", Sony Kapoor, e da ATTAC-Brasil, Antônio Martins. Organizações de diversos países, entre eles França, Índia, Brasil, Espanha, Alemanha, Inglaterra, EUA, Uruguai, Guatemala, Togo, Congo e África do Sul formavam parte da platéia.

A representante brasileira abriu o evento, falando sobre a cartilha "Justiça fiscal e social X endividamento e lavagem de dinheiro", elaborada especialmente para o evento. Maria Lucia apresentou os principais pontos da cartilha, nas versões português e inglês, que trata da injustiça fiscal e social no Brasil, acentuada pela evasão tributária por meio da utilização de paraísos fiscais e práticas de lavagem de dinheiro. A cartilha também busca a união das entidades mundiais na luta pelo controle do fluxo de capitais financeiros, cuja atual liberdade de movimentação gera crises econômicas sucessivas.

Maria Lucia ressaltou que a reforma tributária do atual governo brasileiro aprofunda a injustiça fiscal no país, onerando cada vez mais trabalhadores e consumidores, enquanto desonera o grande capital, sobretudo o financeiro. Os bancos seguem lucrando cada vez mais e pagando cada vez menos impostos, enquanto o orçamento federal aumenta os cortes de gastos sociais — dentre os quais a supressão de direitos dos servidores públicos e sua defasagem salarial — desviando-se a maior parte dos recursos para o pagamento da dívida.

Serge Colin, do SNUI, expôs as políticas fiscais recentes na França e na União Européia, mostrando que a globalização dificulta o controle dos capitais financeiros, ao permitir que estes se movam mais rapidamente e de forma menos transparente. Essa facilidade de movimentação causou as grandes crises financeiras, como a asiática, em 1997. Durante o mesmo período, as políticas orçamentais e fiscais levadas a cabo nos países da OCDE agravaram o desequilíbrio entre a tributação do capital e a do trabalho, principalmente pelo aumento da tributação sobre o consumo. Isso conduziu à concentração de fortunas e patrimônios nas mãos de poucos, além da prática de absolver os evasores de riquezas em troca da repatriação de capitais. Após ter citado alguns números eloqüentes em matéria de fraude fiscal em diversos países europeus, o representante do SNUI denunciou as leis de anistia fiscal e chamou as entidades para a luta contra os paraísos fiscais e pela instauração da Taxa Tobin sobre os fluxos financeiros especulativos.

Este último ponto foi analisado mais detalhadamente pelo representante da "Tobin Tax Network", Sony Kapoor, que detalhou como a taxa seria implementada. Afirmou que são os povos que devem decidir sobre as políticas fiscais e os programas sociais (educação e saúde, entre outras) e que não se pode mais tolerar o lobby das multinacionais ou o intervencionismo permanente das instâncias internacionais, como o FMI ou o Banco Mundial. Por fim, o representante da ATTAC-Brasil, Antônio Martins, exprimiu seu desejo de ver instaurada rapidamente uma rede internacional que una os diversos atores do FSM interessados pelos assuntos em debate. Incentivou todos os participantes a multiplicarem os contatos e os debates sobre os temas da anulação da dívida, do controle dos fluxos de capitais, da eliminação dos paraísos fiscais, da instauração da Taxa Tobin e da instauração de um novo sistema financeiro internacional, a serviço do planeta.

Após as falas dos palestrantes, numerosos delegados, espontaneamente, tomaram a palavra para formular observações, perguntas e, sobretudo, demonstrar seu interesse por todos os assuntos abordados. Ao final do evento, o sentimento geral traduzia um impulso forte para a construção desta rede internacional almejada pela ATTAC-Brasil.

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Como financiar o desenvolvimento humano sem dívidas.

No último dia do Fórum, o Unafisco recebeu mais um convite para participar da oficina "Como financiar o desenvolvimento humano sem dívidas", realizada na tarde do dia 20 de janeiro e organizada pelo Comitê pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo (CADTM). Na oficina, foi discutido como se daria o financiamento do desenvolvimento humano em um mundo sem dívidas. A coordenação ficou a cargo do integrante do CADTM, Arnaud Zacharie.

Em sua exposição, a representante brasileira destacou que a maioria dos países do Terceiro Mundo tem condições de garantir seu desenvolvimento, mas isso não ocorre principalmente por causa da sangria de recursos para o pagamento de dívidas ilegítimas. Ressaltou especialmente a importância da justiça fiscal para o financiamento do desenvolvimento dos países do Terceiro Mundo. A concentração de renda é cada vez mais acirrada pelos modelos que privilegiam os ricos em detrimento da maioria da população, citando alguns exemplos da legislação brasileira, como a dedução dos juros sobre o capital próprio. Mencionou também a necessidade de discutir as relações comerciais internacionais, pois os preços de nossas exportações – em sua maioria commodities – são regulados externamente e muitas vezes manipulados para atender a interesse do mercado financeiro, prejudicando a obtenção de divisas. Maria Lucia ressaltou também que a questão do endividamento deve ser definitivamente superada, iniciando-se pelo conhecimento completo desse processo por meio do mecanismo da auditoria da dívida, prevista na Constituição brasileira. Após as falas dos palestrantes, houve grande participação dos delegados africanos, que relataram a situação de seus países, semelhante à brasileira: "Quanto mais se paga a dívida, mais se deve", ressaltou um dos delegados.

Essa oficina fechou a participação do Unafisco no Fórum Social Mundial da Índia. Na avaliação do Sindicato, esse evento representou um grande avanço das forças sociais do mundo, que agora contam com o apoio maciço dos movimentos sociais asiáticos.


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